Em Re-construção Constante

Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.







sexta-feira, abril 21, 2006

O Sono



O Sono


O sono que desce sobre mim,

O sono mental que desce fisicamente sobre mim,

O sono universal que desce individualmente
sobre mim ?
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.


Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,

É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para
isso.


O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.


Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de
alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.


Meu Deus, tanto sono! ...


Álvaro de Campos

sábado, abril 08, 2006

Rosa-dos-Ventos

ROSA DOS VENTOS



E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar


Composição: Chico Buarque

quarta-feira, abril 05, 2006

A ÚLTIMA DANÇA DE NATARAJA



Daqui eu observo ela se aproximando. Nada posso fazer ainda.
Ela arrasta uma corrente enorme que lhe atrasa a viagem.
Ela anda às cegas, mas ainda anda.
Ela dança a dança dos sete véus.
Um a um eles devem cair.
O que eu vejo não é o que ela vê, mas eu sinto o que ela sente
Ela me é de várias maneiras
E por fim deve me reencontrar

Não poso avisar a ela ela quando o
espectro salta das sombras.
Como ela me dói ao ter a lança cravada nas entranhas
Eu cuspo sangue, ela segue viagem

domingo, abril 02, 2006

Dançando de Olhos Fechados

"Her eyes, she´s on the dark side..."

Se não bastassem os véus, a venda
Se não bastasse a venda,
A corda.

Acorda, acorda, acorda
A-cor-dar
Dar a cor
Dar com o coração

"Her eyes, she´s on the dark side..."
"Love you, love you, love you"

Musica incidental: Massive Attack.