Em Re-construção Constante

Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.







terça-feira, maio 30, 2006

Dançando




"...Eu estava sentado na praia, ao cair de uma tarde de verão, e observava o movimento das ondas, sentindo ao mesmo tempo o ritmo da respiração. Nesse momento, de súbito, apercebi-me intensamente do ambiente que me cercava: este se me afigurava como se participasse de uma gigantesca dança cósmica. Como físico, eu sabia que a areia, as rochas, a água e o ar a meu redor eram feitos de moléculas e átomos em vibração, e que tais moléculas e átomos, por seu turno, consistiam em partículas que interagiam entre si por meio da criação e da destruição de outras partículas. Sabia do mesmo modo que a atmosfera da Terra era permanentemente bombardeada por chuvas de 'raios cósmicos', partículas de alta energia que sofriam múltiplas colisões à medida que penetravam na atmosfera. Tudo isso me era familiar em razão de minha pesquisa em física de alta energia; até aquele momento, porém, tudo isso me chegara apenas por intermédio de gráficos, diagramas e teorias matemáticas. Sentado na praia, senti que minhas experiências anteriores adquiriam vida. Assim, 'vi' cascatas de energia cósmica, provenientes do espaço exterior, cascatas em que, com pulsações rítmicas, partículas eram criadas e destruídas. 'Vi' os átomos dos elementos - bem como aqueles pertencentes à meu próprio corpo- participarem dessa dança cósmica de energia. Senti o seu ritmo e "ouvi" o seu som. Nesse momento compreendi que se tratava da Dança de Shiva, o deus dos dançarinos, adorado pelos hindus."

(O Tao da Física, Fritjof Capra)

Ah! se fosse só isso...
Mas nunca é "só" isso, sempre é algo mais, algo que está além, algo que só podemos vislumbrar. Por enquanto, nada de "ver".

Só sei que não posso parar de dançar agora. É algo que me mantém quase acordada, mesmo que perto de perder os sentidos.

Meu corpo está melhorando. A alergia do mundo diminuiu. Não sei se isso é bom ou ruim, o que sei é que não posso relaxar só porque as dores diminuiram.

Quando as dores diminuem, fica mais perigoso cair no sono...

terça-feira, maio 23, 2006

Sempre mutação

Agora é o momento de testar várias coisas pregadas.
Tempo de enormes mudanças, muitas possíveis.
Mudar de estado civil,mudar de casa, mudar de país,
mudar de clima, mudar de pele.
Mudar continente, mudar conteúdos.
Testar o desapego: de pessoas, de coisas.
Viver com menos roupas, menos sapatos, menos coisas e
(momentâneamente) menos livros.
Muitos hábitos se foram, muitos ainda se vão.

Enfim, uma longa estrada pela frente...

segunda-feira, maio 22, 2006

A ROSA


Ondas em torno, ondas que atingem minha cápsula, meu casulo.
Daqui de dentro eu tremo e me encolho
Deve estar frio lá fora
Sinto aquela pontada no peito esquerdo
A dor aguda da lança que perfurou o coração de Santa Tereza
Ainda não
Eu tenho medo
Porque sou criança
Sou muito pequenina
Para ficar desnuda
Sem minha casca protetora

Mas sei que isso me adoece
Meu corpo não aceita mais certas coisas do mundo
Estou morrendo?
Estamos todos mortos!
Sou um cadáver que anda e respira
Estou presa num esquife
Como a múmia enclausurada
..................................................

Lembro acreditava, quando era menor, que ao engolir uma semente de
laranja, uma laranjeira podia brotar na minha barriga. Não imaginava que
estava bem perto da verdade, só que ao invés de laranja, é uma rosa, e ao
invés do ventre, é o coração.

Quando faremos um jardim?

quinta-feira, maio 18, 2006



A Loba

Uma loba solitária uiva
afastada da matilha
durante dias seguiu ela
Uma mesma trilha
farejando seu próprio rastro

Sob suas patas negras
ela sente o pulsar
do coraçõa vivo da terra
que se mistura no ar
aos seus uivos

O vento uiva em uníssono
com a loba num lamento
por suas memórias perdidas
se dissolvendo no tempo
e no caminho

Sob seus pelos cinza
o coração de uma mulher
que a muito esqueceu
o que já era e já não sabe o que é
que está perdido

Onde estarão os meus filhos?
Humanos ou caninos?
Que há muito mudaram de estrada
e eu fiquei sem destino...
por enquanto

No coração da floresta
entre os membros da nova matilha
encontrará o que resta
para seguir sua trilha
e o final

por alguém que era antes de nataraja, antes de kali...Andra
.................................................................................................................
"Quem não sabe uivar não encontrará sua matilha."
(Charles Simic)

terça-feira, maio 16, 2006

EM CÍRCULO



1914 - UM SÓ OU VÁRIOS LOBOS

Canetti observa que, na matilha, cada um permanece só, estando no entanto com os outros(por exemplo, os lobos-caçadores); cada um efetua a sua própria ação ao mesmo tempo em que participa do bando. "Nas constelações cambiantes da matilha, o indivíduo se manterá sempre em sua periferia.

"Ele estará dentro e, logo depois, na borda e, logo após, dentro.Quando a matilha se põe em cículo ao redor de seu fogo cada um poderá ter vizinhos à direita e à esquerda, mas as costas estão livres, as costas estão expostas à sua natureza selvagem".


Gilles Deleuze & Félix Guattari (Mil Platôs, vol.1)