
Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo prá me ver,
E que nunca na vida me encontrou
Florbela Espanca
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O que restará de mim quando eu não for mais eu?
Ontem eu me lembrei de muitas coisas que já tinham passado. Coisas de alguém
que não existe mais, apenas nas lembranças e mesmo assim, nunca temos certeza de que aquilo foi do jeito que lembramos mesmo, tendo em vista que a memória vai se alterando, se distorcendo, se enfeitando. Sendo filtrada pelo tempo, pelos novos eus que se sucedem, lá vai a memória, se reconstruindo a cada dia, mudando, entrando e saindo de gavetas.
Aprendi na Academia que a personalidade é mutável, que tentamos fixar algumas caracteristícas mais estáveis para definí-la, mas em suma, ela nunca é a mesma.
Em fim, amanhã, já não serei a mesma que escreve agora. O que serei?
Já me disseram em tom de agressão: "Você não tem personalidade!" (foi minhã irmã, ela não sabia que me ofendendo, na verdade estava me dizendo o maior elogio que eu poderia ouvir!)
Como eu gostaria de não tê-la de verdade.
Imagine, ser apenas, liberta de todas as definições, amarras. Fluindo como uma força da natureza, ou além dela dela: fluindo como um sopro divino que já não possui barreiras e limites, que já se encontra em lugar nenhum.