Em Re-construção Constante

Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.







sábado, julho 29, 2006

Tudo na mais perfeita ordem...

Uma aranhazinha se jogou no vazio com a certeza que seu invisível fio de seda ia sustentá-la. Ela pairou no espaço, por um momento, como se flutuasse no ar e desceu até o chão, subindo na árvore vizinha de onde de novo ela se lançaria, e assim, de uma árvore a outra ela teceria sua teia.

Enquanto isso, ao entardecer, a menina vinha praguejando pelo caminho, recriminando a si próprio por ter se demorado tanto na casa de sua avó. Logo a noite viria, e ela seria pega na noite escura da floresta sem uma única luz como guia. Enquanto resmungava, ela não percebeu que quase pisara numa pequena serpente que se preparava para engolir uma rã, e então seguiu seu curso pensando em voz alta.

Quando pequena, ouvi dizer que cobras imitam passarinhos para atraí-los e depois engoli-los. Quando escuto um pio no mato, sempre acho que é uma cobra dissimulada esperando a próxima presa, como uma sereia, com seus olhos hipnóticos, atraindo.

Nesse fim de tarde, vários pios podiam ser ouvidos.

Mais ao longe, aonde a noite já chegara, um lobo solitário uivava para a lua negra. O uivo engolia os outros sons a sua volta. O uivo parecia engolir toda a noite.

Uma mosca solitária acabava de viver suas vinte e quatro horas de vida. Uma vida toda contida num único dia. E a lagarta verde que um dia seria uma bela borboleta, só seria, porque um passarinho faminto acabou de arrebatá-la do resto da folhagem verde que ela se emprenhara em comer.

Uma alma penada vagava a procura de lenha, olhava aqui e ali, sem se dar conta que atravessava as árvores. Ela ainda não sabia.

Enquanto isso, todos os dias, quando eu me levanto, sou eu mesmo e sempre é hoje*, e essa é minha maldição.

*Somente A Verdade

segunda-feira, julho 24, 2006

À meia-noite eu ergo minha alma
As corujas estavam à procura de alimento;
As raposas murmuravam impaciente calma,
Elas suportam tanto mal com seu pálido lamento.
Eu pensei sobre as eternidades adiadas
E comandos que obedecidos pela metade fossem.
As brisas noturnas através da clareira sussuradas
Como se uma força de homens ali estivesse;
A palavra era sussurada pelas posições
E cada herói clamava sua lança;
A palavra era sussurada pelas posições
Avança.

Henry David Thoreau.

quarta-feira, julho 19, 2006

APAGUE-ME


Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos

Apague-me, também não existo
Sinto sono, e quando durmo, sentada
no ônibus ou na mesa de trabalho
fingindo que leio algo no computador
formas estranhas se insinuam em minha mente
ecos
sussurros
Eles falam comigo
Eles?
Eu?
Quem?
Delete-me

E Kali deletou Andra
que deletou Nataraja
Somos todos um e ninguém

Começo a esvaziar
blup blup blup
um rio escorre
Ainda falta um mar
É tanta coisa e só um ralo para que tudo saia
saia, saia
apague

quinta-feira, julho 13, 2006

FORMAS E PARTES

Quando me olhava no espelho, comecei a pensar o quanto tendemos a nos identificar com o nosso rosto, o quanto achamos que ele é de fato a nossa face. Estava pensando isso porque pintei meus cabelos de uma cor errada, uma cor que deixou meu rosto muito diferente do que estava antes. Eu não estava me reconhecendo, não era mais eu. Então, percebi o absurdo desse pensamento.

Isso me remeteu para o Koan budista:

“Qual a sua verdadeira face, aquela que você tinha antes de nascer”.
E eu me perguntava qual seria a minha verdadeira face. Eu me perguntava se haveria uma face verdadeira.

A fixação na forma é uma das piores misérias a que o ser humano está condenado, principalmente a fêmea humana, cujo desejo é fomentado por um ideal de juventude e beleza ilusório.

Qualquer forma é transitória. Fixar algo significa matá-lo. Tentar eternizar algo que é passageiro é congelar um movimento, é enrijecer, e rigidez significa morte. A única coisa que podemos fazer para evitar isso é nos manter em movimento e ignorar o que nos dizem as fotos. O que são fotos? Não são fixações em momento que já passou? “Nossa, como eu estava magra!”, “Poxa, como eu fui envelhecer assim?”. Ninguém percebe que a cara da foto não é mais a sua cara, um segundo depois, não é mais a mesma, dois dias depois, já é outro rosto que te olha do espelho.


Todas aquelas atrizes que conseguiram sua fama graças à beleza acabam se tornando ridículas na velhice, cascas engessadas, vazias. Todo esse esforço vão de eternizar uma ilusão. Uma meta de vida realmente absurda.

Engraçado é que as pessoas mais joviais são justamente as que não se preocupam com isso.

Mas o pior é que ainda me pego me olhando no espelho.



Também pensava sobre o meu maior medo, que nunca foi morrer. Sempre temi ficar paralítica ou perder partes do corpo. Imagine! Perder partes de mim! Isso é outro absurdo. Como se perde partes daquilo que é indivisível? Mais uma vez, a fixação nas formas...

Mais uma vez o medo. Medo de mergulhar num inferno em vida, depender dos outros, não poder ir e vir à vontade. Mas já não estamos assim? Não percebemos, mas já estamos.

O medo do desconforto, o medo de ser despedaçado, fragmentado. Como se isso fosse definitivo, como se tudo não fosse passar. O conforto, o desconforto, a alegria, a tristeza, ilusões em que nos enfronhamos para não enxergar mais nada. Nos ocupamos dos pequenos assuntos, dos nascimentos, dos casamentos, das separações, como se isso nos desse sentido na vida.

Vejo meninas jovens sofrerem meses por um “pé na bunda”. Vejo que eu já fui uma dessas meninas, e do alto do tempo sorriu e tento não ser arrogante ao dizer: “Veja bem querida, rapazes vem, rapazes vão. Vá cuidar do que realmente fica”.

E elas deixam se enredar pela linguagem, como se a linguagem pudesse dizer a verdade sobre seus corpos: “Meu coração está partido”, “Estou aos pedaços”, “Estou em frangalhos”.

Essa é a morte em vida.

domingo, julho 09, 2006

DIÁRIO DE ANDRA

Querido diário,


Quanto sono. Quando o tempo vai passar? Ele não passa. Mas eu vejo o seu efeito. Ei! vejo as noites, eu vejo os dias. Mas não passa. Então como o corpo envelhece? Ora, não me venha com amolações, ok?

Hoje, dirigindo por um caminho conhecido, tive a impressão de circular na minha própria mente, entre caminhos feitos nos meus próprios neurônios, e os impulsos vão se transmitindo, iluminando um certo caminho. São tantos neurotransmissores...

Lembro da professora de fisiologia falando da “circuitaria neural”. Circuitaria neural, me senti estranhamente cheia de fios.

quarta-feira, julho 05, 2006

A PREGUIÇA

Sloth

Sometimes when I'm alone
I imagine that the world is a mirror
And in minds eye behold my dark inner nature

I've been wasting time on this time honoured whore
'Til I get so confused I can't see anymore
And I have crawled where I should have seen the signs
Dragging my feet when I could have been flying

Sometimes when I'm sad
I drink to the health of my torment
And dance at the altar
To the tune of a drunken black tango

I've been wasting time on this time honoured whore
'Til I get so confused I can't see anymore
Wasted my youth trying to settle old scores
Dragging my feet when I could have been flying
Dragging my feet when I should have been flying
Dragging my feet

Brendan Perry

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Estou com preguiça (de pensar, principalmente), por isso não vou traduzir

A preguiça

Um dos sete pecados capitais

Uma das 9 Chitta Viksepa (distrações e obstáculos)

A preguiça: Alasya

Uma praga que me persegue

"Alasya : Para remover o obstáculo da preguiça, é preciso um inabalável entusiasmo (virya). A atitude do aspirante é como a do amante, sempre querendo encontrar-se com a amada, mas nunca cedendo ao desespero. A esperança deve ser seu escudo e a coragem, sua espada. Deve estar livre de ódio e de mágoa. Com fé e entusiasmo, deve superar a inércia do corpo e da mente."

B.K.S. Iyengar (A Luz da Ioga)

No entanto, a preguiça não existe

Por Andra, que atormenta Kali noite e dia.

sábado, julho 01, 2006

RELIGIÃO

"Se você deseja controlar uma grande quantidade de pessoas, você tem que desconectá-las do verdadeiro conhecimento de quem elas são e do próprio potencial infinito delas para manifestar o seu próprio destino e controlar suas próprias vidas. Você tem que convencê-las de que elas são insignificantes e impotentes assim elas viverão as suas vidas de acordo com isso."

"(...)Uma população completamente acordada e mentalmente afiada é a última coisa de que você precisa se você quer controlá-la."

David Icke