
Quando me olhava no espelho, comecei a pensar o quanto tendemos a nos identificar com o nosso rosto, o quanto achamos que ele é de fato a nossa face. Estava pensando isso porque pintei meus cabelos de uma cor errada, uma cor que deixou meu rosto muito diferente do que estava antes. Eu não estava me reconhecendo, não era mais eu. Então, percebi o absurdo desse pensamento.
Isso me remeteu para o Koan budista:
“Qual a sua verdadeira face, aquela que você tinha antes de nascer”.

E eu me perguntava qual seria a minha verdadeira face. Eu me perguntava se haveria uma face verdadeira.
A fixação na forma é uma das piores misérias a que o ser humano está condenado, principalmente a fêmea humana, cujo desejo é fomentado por um ideal de juventude e beleza ilusório.
Qualquer forma é transitória. Fixar algo significa matá-lo. Tentar eternizar algo que é passageiro é congelar um movimento, é enrijecer, e rigidez significa morte. A única coisa que podemos fazer para evitar isso é nos manter em movimento e ignorar o que nos dizem as fotos. O que são fotos? Não são fixações em momento que já passou? “Nossa, como eu estava magra!”, “Poxa, como eu fui envelhecer assim?”. Ninguém percebe que a cara da foto não é mais a sua cara, um segundo depois, não é mais a mesma, dois dias depois, já é outro rosto que te olha do espelho.

Todas aquelas atrizes que conseguiram sua fama graças à beleza acabam se tornando ridículas na velhice, cascas engessadas, vazias. Todo esse esforço vão de eternizar uma ilusão. Uma meta de vida realmente absurda.
Engraçado é que as pessoas mais joviais são justamente as que não se preocupam com isso.
Mas o pior é que ainda me pego me olhando no espelho.

Também pensava sobre o meu maior medo, que nunca foi morrer. Sempre temi ficar paralítica ou perder partes do corpo. Imagine! Perder partes de mim! Isso é outro absurdo. Como se perde partes daquilo que é indivisível? Mais uma vez, a fixação nas formas...
Mais uma vez o medo. Medo de mergulhar num inferno em vida, depender dos outros, não poder ir e vir à vontade. Mas já não estamos assim? Não percebemos, mas já estamos.
O medo do desconforto, o medo de ser despedaçado, fragmentado. Como se isso fosse definitivo, como se tudo não fosse passar. O conforto, o desconforto, a alegria, a tristeza, ilusões em que nos enfronhamos para não enxergar mais nada. Nos ocupamos dos pequenos assuntos, dos nascimentos, dos casamentos, das separações, como se isso nos desse sentido na vida.
Vejo meninas jovens sofrerem meses por um “pé na bunda”. Vejo que eu já fui uma dessas meninas, e do alto do tempo sorriu e tento não ser arrogante ao dizer: “Veja bem querida, rapazes vem, rapazes vão. Vá cuidar do que realmente fica”.
E elas deixam se enredar pela linguagem, como se a linguagem pudesse dizer a verdade sobre seus corpos: “Meu coração está partido”, “Estou aos pedaços”, “Estou em frangalhos”.
Essa é a morte em vida.