Em Re-construção Constante
Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.
terça-feira, agosto 22, 2006
sexta-feira, agosto 04, 2006
Aviso da lua que menstrua
Moço, cuidado com ela!Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço,
por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
Elisa Lucinda
O semelhante, Editora Record, 1998 - Rio de Janeiro, Brasil
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Tava andando por aí, daí vi isso.
Lembrei de Lulu e o seu post materno.
Taí Lulu, esse é pra você, ou melhor, para nós, mamíferas, fêmeas, condenadas a dar a luz na dor, escorraçadas do Eden (todos nó, diz o corvo que sussurra no meu ombro esquerdo), por isso cravamos, muitas vezes, os dentes e as unhas nos machos.
Agora, irmãs, um grande uivo pra lua.
terça-feira, agosto 01, 2006
Um dia atrasada

A estrada era muito longa e eu sempre tinha impressão de estar um dia atrasada. Parecia que sempre faltava um passo. As paisagens desoladoras se sucediam a verdes pastagens, florestas frias e escuras, lugares aprazíveis e paisagens desoladoras novamente. Às vezes, eu tinha certeza que já havia passado por aquele lugar, tinha certeza que estava andando em círculos e me perguntava se não era melhor escolher o pouso que mais me agradasse e me estabelecer por lar.
É muito fácil sentir-se cansada e desanimar no caminho.
Encontrei algumas pessoas que se quedavam na estrada e ficavam a ver os passantes por anos a fio, congeladas, outras adentravam em tabernas escuras e lamentavam os anos gastos em viagens bebendo o vinho amargo do desânimo. Alguma pessoas escolhiam cidades alegres e festivas e se envolviam em um turbilhão de diversões ou se enfronhavam nas milhares de rotinas possíveis que uma cidade tem a oferecer, e assim, iam esquecendo pouco a pouco que deviam chegar a algum lugar que não aquele.
Eu não saia do caminho, não por que fosse mais forte que os outros, mas simplesmente por que meus pés se moviam, e por que percebia, tanto nas cidades quanto nos campos, nas tabernas ou nos santuários um lento apodrecer que advinha da falta de movimento.
Claro que por vezes eu me quedava exausta em alguma hospedaria de beira estrada. Nesses tempos, eu dormia por dias e dias seguidos e acordava arrependida e com as costas doendo, pois ficar deitada muito tempo faz muito mal. Perguntava-me como seria a parada final, e se havia uma parada final? Agora eu nem me pergunto mais, só sigo adiante até chegar ou me dissolver no vento.
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