Queda

-Todos os espaços desabitados precisam de uma reformulação.
-Oh! Não. Deixem os espaços vazios.
-Eles pedem por ser invadidos, é como uma força que preciona os desabitantes para dentro, para dentro e muito fundo.
-Quando conseguiremos escapar?
-Idiota, não existe fuga. Enfrente, apenas isso.
-E se eu sucumbir?
-Problema seu. Sucumbir é melhor que correr atrás do nada, correr, correr, e não se chega lá. Não existe esconderijo. Em frente, enfrente, morra tentando. É isso, morra.
-Estou tão cansada de correr...
-Hora de parar. Se virar e enfrentar.
Apenas parada no cume da montanha. Desabitada, desabitante. Os ventos sacudiam e vinham por todos os lados. Por que não optei por uma vida segura? Lá, onde só existe uma realidade e ela não é maldita. Doce ignorância. Lá onde não existem camadas, só superfícies, todas habitadas por seres conhecidos, orgânicos seres e todos os anjos são bons e Deus é bom e o Diabo é o outro. Onde os homens são todos iguais, as mulheres são todas sensíveis, os políticos são sempre os culpados e como diz Zaca Baleiro "Já tenho um filho e um cachorro, me sinto como num comercial de margarina, sou mais feliz do que os felizes, sob as marquises me protejo do temporal".Por que não optei pelo lugar comum, senso comum? Por que porra não optei em não tentar, mesmo que infimimamente, acordar? Por que não me aninhei nos doces sonhos da Matrix? Só posso ter batido minha cabeça na queda.
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