MUITO SOBRE O NADA

Como se inicia uma história sobre o nada? Quais devem ser as primeiras palavras?
Quem já se sentiu preso no instante imediatamente anterior ao turning point? Congelado no tempo, num momento e lugar em que nada vai para lugar nenhum. Todos os dias passam a se repetir numa infidável fileira de dias infindáveis e inúteis, cujo o único proposito é finalizar o dia, e tentar dormir, e tentar acordar no outro dia, um dia novo. Mas nunca se acorda. Não de fato.
Quem consegue se perceber preso a maldição do tempo?
Realmente tocamos uns aos outros?
Normalmente eu percebo que as pessoas, quando conversam, não estão realmente dialogando, mas estão seguindo dois monólogos em paralelo. Uma finge que escuta e parece responder, mas no fundo fala para si mesma, escuta a si mesma. Eu, normalmente, não perco mais meu tempo, converso com as paredes que são boas ouvintes, exceto por um grupo muito pequeno – que ainda assim não garante que o dialogo esteja acontecendo, mas pelo menos é um grupo capaz de elicitar monólogos interessantes.
O caminho é solitário, mas saber disso não torna a solidão mais suportável. Não existe nada capaz de aliviar a carga e colaborar com o fazer-se desperto ao mesmo tempo. Alívio real antes do despertar é impossível. Esse tipo de alívio é so entorpecimento.
POR TRÁS DA VERDADE
Às vezes eu penso que seria mais facil se eu nunca tivesse tido um vislumbre sequer disto, ou se eu acreditasse piamente em alguma religião que me oferecesse um caminho burocrático para a salvação. Mas como um personagem do filme Matrix descobre pagando com a própria vida, não existe retorno possível, assim como não existe retorno possível a Ixtlan.
Mas como eu poderia querer retornar àquilo que ainda está comigo?
Não estamos despertos, somos sonâmbulos. Ser um sonâmbulo nos coloca numa existência mais desconfortável do que a daquele que dorme imóvel.
Sonâmbulos no deserto. Essa é a vida do intermezzo, nós, os imbecís, os loucos. E como é facil nos enganarmos ao confundir a chama da vela com o sol! Nós, os não-iluminados, os cegos. Tendo como desafio permanecer num mundo que descobrimos morto. Tendo a obrigação de desmontar a bomba que jaz em nosso peito. Sem tempo.
Não somo iluminados.
Não somos escolhidos.
Não somos enviados.
Somos condenados armando um plano de fuga. Traças tentando roer o duro tecido que encobre a tudo, a tudo que nem sabemos o que é, apenas intuímos. Mas por que confiar nessa intuição? Nos, que perdemos a esperança e só temos fé.
Mas isso não é a verdade.
Estas são somente palavras.
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