Confesso que sempre tive um pouco de dificuldade de entender o conceito de implacabilidade como ensinado por D. Juan. Na verdade, o problema maior não é nem tanto o meu entendimento, mas a aplicação. A tradição judaico-cristã entranhada na nossa sociedade faz com que confundamos implacabilidade com crueldade, e ser bom com ser "bonzinho". O justo, como preconizado pelo Tao,por exemplo, não é assimilado. Sempre que aplicamos alguma ação tendemos a pender para um dos dois lados, e mesmo quando conseguimos um equilíbrio desejado somos mal interpretados, pois as pessoas não conseguem perceber aquilo como justiça, pois sempre querem que passemos a mão pela cabeça delas, e se aplicamos alguma ação mais assertiva é porque não as amamos.
Claro que muito se tem falado do
tough love, que seria algo como "amor duro", ou seja, ser capaz de dizer o que se precisa para alguém com a franqueza necessária, sem nhen-nhen-nhem, mesmo que isso pareça cruel, mas com amor, porque se quer que aquela pessoa cresça. E isso ressoa em mim como algo na linha da implacabilidade. Mas tente aplicar o
tough love para ver o que acontece. Aliás, aplicar o
tough love será meu desafio para o próximo ano.
O problema é que eu ainda não desenvolvi aquela sintonia fina de que Don Juan falava:
"Seja implacável mas encantador. Seja esperto mas simpático. Seja paciente mas ativo. Seja doce mas letal."
A verdade é que ou eu sou muito permissiva ou eu peso a mão.
Mas toda essa reflexão surgiu por conta de ter recebido um desses e-mail com aquelas estorinhas de lição de moral, e na sua conclusão eu só pude pensar na implacabilidade:
A bondade que nunca repreende não é bondade: é passividade.
A paciência que nunca se esgota não é paciência: é subserviência.
A serenidade que nunca se desmancha não é serenidade: é indiferença.
A tolerância que nunca replica não é tolerância: é imbecilidade.
Bem, talvez minha próxima tatuagem seja essa: "Seja doce mas letal". Apesar de eu preferir sabores mais amargos. Mas não existem paradoxos irreconciliáveis.