Em Re-construção Constante

Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.







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domingo, dezembro 22, 2013

SOBRE A IMPLACABILIDADE



Confesso que sempre tive um pouco de dificuldade de entender o conceito de implacabilidade como ensinado por D. Juan. Na verdade, o problema maior não é nem tanto o meu entendimento, mas a aplicação. A tradição judaico-cristã entranhada na nossa sociedade faz com que confundamos implacabilidade com crueldade, e ser bom com ser "bonzinho". O justo, como preconizado pelo Tao,por exemplo, não é assimilado. Sempre que aplicamos alguma ação tendemos a pender para um dos dois lados, e mesmo quando conseguimos um equilíbrio desejado somos mal interpretados, pois as pessoas não conseguem perceber aquilo como justiça, pois sempre querem que passemos a mão pela cabeça delas, e se aplicamos alguma ação mais assertiva é porque não as amamos.

Claro que muito se tem falado do tough love, que seria algo como "amor duro", ou seja, ser capaz de dizer o que se precisa para alguém com a franqueza necessária, sem nhen-nhen-nhem,  mesmo que isso pareça cruel, mas com amor, porque se quer que aquela pessoa cresça. E isso ressoa em mim como algo na linha da implacabilidade. Mas tente aplicar o tough love para ver o que acontece. Aliás, aplicar o tough love será meu desafio para o próximo ano.

O problema é que eu ainda não desenvolvi aquela sintonia fina de que Don Juan falava:

"Seja implacável mas encantador. Seja esperto mas simpático. Seja paciente mas ativo. Seja doce mas letal."

A verdade é que ou eu sou muito permissiva ou eu peso a mão.

Mas toda essa reflexão surgiu por conta de ter recebido um desses e-mail com aquelas estorinhas de lição de moral, e na sua conclusão eu só pude pensar na implacabilidade:

A bondade que nunca repreende não é bondade: é passividade.
A paciência que nunca se esgota não é paciência: é subserviência.
A serenidade que nunca se desmancha não é serenidade: é indiferença.
A tolerância que nunca replica não é tolerância: é imbecilidade.

Bem, talvez minha próxima tatuagem seja essa: "Seja doce mas letal". Apesar de eu preferir sabores mais amargos. Mas não existem paradoxos irreconciliáveis.









terça-feira, fevereiro 08, 2011

AS DORES DE CRESCIMENTO NO MOMENTO DE TRANSIÇÃO




INÍCIO DA MORTE EM VIDA
E UM POUCO MAIS SOBRE A IMPLACABILIDADE (RECAPITULANDO CASTANEDA)

O problema com a implacabilidade é que você vai perdendo certas características humanas. Ou melhor, o problema não é este, afinal este é o objetivo. O problema é quando você não consegue fingir mais estas características. E fingir, ou melhor, atuar (não me lembro bem qual o livro agora em que D. Juan fala do Nagual Julian, mas é bom lembrar que ele era um ator) é difícil neste momento de transição onde você ainda não deixou sua humanidade completamente para trás e ainda não é o que deve vir depois. Este ser híbrido, que não consegue disfarçar suas mudanças, tem uma aparência assustadora para quem está de fora.

Aguarde o ataque. As pessoas atacam o que não podem enquadrar. Isto está bem simbolizado em histórias como Frankenstein, X-men e Powder (filme), assim como no poema ‘A Ave’ de Jorge de Lima, que me acompanhou durante anos e que agora redescobri – Prometo transcrevê-lo aqui.

Em um momento tudo parecerá contra você: os homens, principalmente os mais próximos, as energias humanas, a realidade co-criada. Eles dizem: “Mas você não era assim.”, com horror, “Não sei onde você aprendeu essas coisas.”, com desprezo, como se você ainda fosse o ser não pensante, o zumbi, como se você fosse ainda como eles.

O que vem depois eu não sei, ainda não passei deste estágio – se é que entrei nele de fato– em que o mundo humano se levanta contra, mas tenho me mantido fria, pelo menos na superfície, a maior parte do tempo. A oscilação da sensação de sentir-se extremamente forte e extremamente fraco é uma constante que estou aprendendo a lidar.
Don Juan diz que se deve ser implacável, mas não cruel. Difícil evitar a tentação. Prova de que ainda falta muito para mim.

Só para lembrar:

“implacável, mas encantador
esperto, mas simpático
paciente, mas ativo
doce, mas letal”

sábado, janeiro 01, 2011

Recapitulando (conceitos presentes na obra de Castaneda): Guerreiro


Um guerreiro devia andar calmamente, sem ser afetado. Seus passos deveriam ser certos e firmes, seus olhos olhando em frente, pacificamente. Ele devia ir até o fim sem tropeçar, sem se voltar para olhar para trás e, acima de tudo, sem correr.
Um guerreiro deve estar sempre pronto.
Tales of Power - Carlos Castaneda


sábado, dezembro 04, 2010

RECAPITULANDO (conceitos presentes na obra de Carlos Castaneda): IMPLACABILIDADE


Fonte: caderno de anotações
Fonte original: O poder do Silêncio

Sobre a Implacabilidade – O Oposto da Auto-piedade

O LUGAR DA NÃO-PIEDADE

“A autopiedade é o inimigo real e a fonte da miséria do homem. Sem um grau de piedade por si mesmo, o homem não poderia suportar ser tão importante como pensa ser. Entretanto , como a força da auto-estima está empenhada, desenvolve seu próprio impulso. E é esta natureza aparentemente independente da auto-estima que lhe da seu falso senso de valor.”

Importante lembrar que “implacabilidade não é crueldade, mas sobriedade”.

Seja:

“implacável, mas encantador
esperto, mas simpático
paciente, mas ativo
doce, mas letal”

Eu, da minha parte, não tenho nada a comentar, pois ainda me permito a indulgência da auto-piedade, e sim, ela retarda toda a evolução.

Eu prometo: ser implacável comigo mesma.

sexta-feira, maio 14, 2010

Better the Unknown Devil

“Porque somos criaturas de hábitos, nós precisamos praticar a ação apesar do medo, apesar da dúvida, apesar da preocupação, apesar da incerteza, apesar da inconveniência, apesar do desconforto, e mesmo praticar a ação quando não estamos dispostos a agir.”

“Viver baseado em segurança eh viver baseado no medo.”

T. Harv Eker

Entre intentar e atingir, é preciso agir. Mesmo o não-fazer como recomendado por D. Juan nos livros de Castaneda é um tipo de ação. Na verdade, o não-fazer é uma ação desconstrutora de hábitos, o que por sí só já é fantástico. O que me lembra que tenho que voltar a agir no não-fazer...

O que nos impede de agir fora do hábito em geral, e desta forma nos previne de realizar qualquer mudança é o medo. O desejo de inércia não é nada mais do que medo do que virá caso saiamos deste modo de operação. Isto explica porque muitas pessoas se mantém em situações extremamente nocívas. Elas sabem que não está bom, elas gostariam que melhorasse, mas a ação também poderia derivar em uma situaçéo imediata de desconforto, então melhor não fazer nada.

Em inglês se diz “better the devil you know” ou “melhor o diabo que você conhece”. Comodismo. Eu realmente acredito que mais do que a preguiça, é o medo que nos impele a não transformação. Paralizamos, e deixamos as coisas rolar. Mas eu nunca fui parar em nenhuma situação realmente transformadora seguindo o refrão da música “Deixo vida a mida me levar”.

Eu tive a sorte de ouvir de alguém ( e de ter alguem sempre me futucando) uma frase mais interessante : “Ou você empurra a vida, ou a vida te empurra”. Trocando em miúdos, você tem que conduzir sua transform-ação, uma transformação que venha
expontaneamente do nada pode ser mais arriscada do que a ação temida.

A questão é que o medo está aí, o tempo todo. Dizem que ter coragem não é não ter medo, é ter medo, ponderar (mas não aquele ponderar que é só o pensamento dando voltas para retadar a ação, mas o ponderar do intento) e agir mesmo com o frio na barriga. Quem não tem medo de nada é inconsequente, e tende a agir sem intento. Mas talvez consigamos chegar a um estágio ideal em que o medo não exista, mas acho que este estado só chega para aquele que já atuou sob a influência de todos os medos.

Eu tenho medo, sempre tive, mas ele nunca foi embora porque eu fiquei parada. Hora de deixar o diabo conhecido para trás e enfrentar o diabo desconhecido.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

MEDO ou convite


Eu tenho desejado deixar para trás
O sibilar da mentira gasta
E o contínuo lamento dos velhos terrores
Que se fazem piores a cada dia
Que se vai por cima do morro para dentro do mar profundo.
Eu tenho desejado deixar para trás mas eu tenho medo;

Alguma vida, ainda não vivida, poderá explodir
Para fora da velha mentira queimando no chão,
E, se despedaçando pelo ar, deixar-me meio-cego.

Dylan Thomas

Lido por Castaneda em The Art of Dreaming

O que fazer com o medo?

Eu comecei a ler um livro simplemente porque eu achei o título fantástico: SINTA O MEDO E FAÇA DE QUALQUER JEITO. É, obviamente, um desses livros de pensamento positivo que é beeem Pollyana e escrito num estilo beeem irritante, mas o título é fantástico! O título é tudo o que eu precisava ler. E também as tais das cinco verdades sobre o medo que a autora lista são bem úteis para se manter em mente.

Vamos a elas:

O medo nunca irá embora enquanto eu continue crescendo.
A única maneira de se livrar do medo de fazer algo é sair...e fazer isso.
A única forma de me sentir melhor comigo mesma e sair...e fazer isso.
Não só eu irei experimentar medo sempre que eu estiver em um território desconhecido, mas também todo mundo experimenta o mesmo.
Avançar através do medo é menos assustador do que viver com o medo constante do sentimento de incapacidade.

Traduzido do livro Feel the Fear and Do It Anyway, by Susan Jeffers

Então saiamos, ainda que arrisquemos ficar meio cegos. Mas nos já somos totalmente cegos. O que temos a perder?

quarta-feira, janeiro 27, 2010

SOBRE A ESPREITA

SOBRE A ESPREITA

Folheando meu caderno eu encontro minhas anotações sobre o livro O Pode do Silêncio de C. Castaneda. Engraçado que este nome parece título de livro de meditação, e não deixa de ser.

Eu anotei, como que anotando de um manual de instruções, os quatro passos para aprender a espreitar, e como relembrar nunca é demais – como diziam aquelas rádios bregas de flashbacks “recordar e viver de novo” - , vamos aqui a uma revisão pública.

QUATRO PASSOS PARA APRENDER A ESPREITAR:

Implacabilidade
Esperteza
Paciência
Doçura

Implacabilidade não é rudeza
Esperteza não é crueldade
Paciência não é negligência
Doçura não é tolice

Implacável, mas encantador
Esperto, mas simpático
Paciente, mas ativo
Doce, mas letal

“Espreitar é o comportamento especial que segue certos principios. É um comportamento secreto, furtivo, enganoso, designado a provocar um choque. É quando você espreita a si mesmo, você choca a si mesmo, usando seu próprio comportamento de um modo implácavel e astucioso.”

Engraçado, mas dia desses eu falava com o Renato, ex-Pato (aliás, Renato, o codinome Pato é genial e você deveria voltar a usá-lo, ou melhor, podia adotar Patinho Feio, que tem um impacto maior na noção de transformação, mas deixa pra lá) sobre a expressão original em inglês que o Castaneda usou para espreitador: stalker. O stalker é aquela pessoa que te escolhe como vítima, se apaixona por você e começa a ter perseguir, podendo chegar aos limites da loucura e do crime. Guardando as devidas proporções, todo mundo já teve ou já foi um. Engraçado é que talvez seja mais fácil ser um stalker do alheio do que de si próprio.

Me lembro de uma entrevista com o ator de Dexter em que ele dizia que resolveu seguir uma pessoa na rua uma vez para ver como era (laboratório para o personagem, não?) e ficou impressionado como foi fácil seguir a pessoa por certo período sem que esta se desse conta.

Também li numa revista punk (não lembro o nome, mas é uma canadense) a experiência de uma menina que resolveu escolher um cara em um bar e ser stalker dele (daquelas extremas, que perseguem o cara no trabalho, ligam para mãe do cara dizendo desforos, etc, etc). Ela fez isto como um experimento, não a sério, apenas copiando o comportamento desequilibrado de pessoas que fazem isso (loucura controlada?), usando ao seu favor a facilidade com que os homens (não todos claro), se achando sempre auto-confiantes, levam uma mulher estranha para casa. Bem, a leitura é um tanto engraçada (e angustiante e embaraçosa ao mesmo tempo), e eu não consegui achar mais a revista, senão traduzia isto aqui, mas gracinha a parte, aquilo foi um verdadeiro ato de loucura controlada, mais do que de espreita no sentido castanêdico. Ela disse que foi impressionante a quantidade de energia dispendida para conseguir atuar tudo aquilo – que não imaginava como pessoas faziam aquilo “a sério” por meses a fio, que aquilo drenou todas as forças dela por uma semana mais ou menos, quando o cara se desesperou e chamou a polícia, e ela resolveu parar com a “brincadeira”.

Mas voltando a espreita, a questão é que Castaneda escolheu a expressão stalker para espreitador, que tem um sentido muito dúbio em inglês, já que o stalker é um obsecado, obsediador encarnado. Mas se uma pessoa é capaz de dispender tanta energia seguindo um outro, por que não a si mesmo? É tão mais fácil se colocar fora, e tão fácil esquecer de se vigiar (lembram do velho dizer: vigiai e orai? É vigiar a si mesmo que esta implícito, e o orai para mim é relembrar a si mesmo do intento). No fundo, somos muito frágeis e temos medo de enlouquecer nesse processo, mas isto é fruto da auto-piedade, que segundo D. Juan é o contrário da implacabilidade, e assim ficamos andando em círculos.

Bom, isto aqui já está muito longo pra um post só, então para finalizar eu transcrevo um parágrafo sobre a loucura controlada:

“Don Juan explicou que a loucura controlada como a arte do engano controlado ou a arte de fingir estar profundamente imerso na ação – fingindo tão bem que ninguém pudesse distinguí-lo da coisa real. A loucura controlada não é um engano direto, mas um modo sofisticado, artístico, de estar separado de tudo permanecendo ao mesmo tempo uma parte de tudo.”

Mas a minha loucura nunca foi controlada e eu sei o que é espreita, mas saber disso não me faz uma espreitadora. Kali é uma bela farsa, mas Andréa é uma farsa maior, não a farsa da loucura controlada, mas a farsa vulgar dos que não se assumem totalmente), e confessar isso não me salva, não me alivia e não me faz melhor.

Perdão, mas eu queria que vocês soubessem disto. A única coisa real é meu amor por vocês (vocês sabem quem são ‘vocês’ quando lerem isso) e pelo caminho, ainda que eu seja incapaz de seguí-lo de pé, por isso eu continuo rastejando e meu nome é serpente.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

A Real Realidade, Castaneda e Lacan ou Combinação Improvável

Este texto eu normalmente colocaria no http://bruxariacotidiana.blogspot.com/, mas como este blog está prestes a ser assimilado, eu decidi começar a unificacao por ele.
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“Uma pessoa apenas percebe os pedaços de realidade que se encaixam nas suas fantasias primárias.” (1)

E eu selecionei a frase acima frase ela se encaixa no que eu venho dizendo ultimamente. Ou seja, eu não poderia deixar de ser terrivelmente tendenciosa, mas pelo menos eu assumo. O problema é que as pessoas que advogam a objetividade ainda não perceberam que elas se apoiam em uma falácia: a objetividade não existe, aliás, existe como um conceito, mas é impraticável. Tudo no mundo humano é tendencioso e subjetivo.

Talvez eu tenha me expressado mal com algumas pessoas afirmando que o real é inexistente. De fato, deve haver um real absolutamente concreto, acontece que, se ele está lá, nós não temos nenhum aparato para percebê-lo, então, para nós, ele não existe. O que chamamos de real seria talvez este algo que nos fornece estímulos para que geremos nossas percepções, experiências e imagens.

No universo de Castaneda, o real seriam os inúmeros filamentos que permeiam o universo, e dos quais nós percebemos um número muito reduzido. Com este pequeno numero de filamentos percebidos nós criamos nossa realidade. Os filamentos que nós somos capazes de perceber são determinados pela nossa educação e pela cultura. Castaneda usa o termo ‘ponto de aglutinação’ com realação a este ‘órgão’ perceptor que seria responsável pela filtragem e leitura dos filamentos. Eu nunca gostei muito deste termo: ‘ponto de aglutinação’ . No original em inglês, a palavra utilizada é Assembly point, que eu penso que pareceria melhor traduzida como ‘ponto de agrupamento’. Por que? Por uma questão da palavra soar mais simples e direta para mim, só isso. No entanto eu não tenho a menor idéia de qual palavra foi usada originalmente em espanhol por Don Juan, já que os livros foram escritos por Castaneda em inglês - e as versões em espanhol que existem, até onde sei, foram traduções - fica impossível portanto saber qual a palavra realmente selecionada para explicar o processo. Isto é só mais um exemplo de como possuímos um sem número de maneiras de expressar - e desta forma moldar - uma única coisa, um sem número de maneiras de explicar um suposto real, concreto, absoluto, único.

Voltando ao ponto de aglutinação, este órgão perceptivo se locarizaria fora do corpo, no nosso corpo energético, que para D. Juan/Castaneda, teria a forma de um ovo luminoso. A educação que a pessoa recebeu fixaria este ponto em um certo local que determinaria os tipos/quantidades de filamentos que ela seria capaz de perceber e, consequentemente, os tipos/quantidades de realidade que chegariam até ela. Certas disciplinas a que a pessoa se imporia, experiências, estados de sonho ou o uso de psicotrópicos poderiam habilitar a pessoa a mover este ponto - mudando assim os filamentos com os quais ela teria contato - e desta forma perceber outras realidades tão reais quanto a nossa realidade do dia-a-dia, já que seriam compostas da mesma substância, ou seja, filamentos de energia.


Fica óbvio entender que movimentos bruscos do ponto de aglutinação gerariam percepções tão díspares que remeteriam o sujetio despreparado a um estado de loucura.

Retomando o ponto da questão do real com relação a Lacan, Zizek diz que “a tese fundamental de Lacan é que um mínimo de ‘idealização’ – da interposição da moldura fantasmática com a qual o sujeito assume a distância do real – constitue nosso ‘senso de realidade’: ‘Realidade’ ocorre desde que o real não esteja (e não chegue) ‘muito perto’.” (2) Nossa percepção e interpretação é o que nos distanciaria do real.

Para Don Juan, a realidade última - ou seja, o real - seriam os filamentos luminosos, mas os filamentos luminosos por si mesmo não dizem nada para os seres humanos comuns, eles não são sequer percebidos como tais, eles precisam ser absorvidos pelo ponto de aglutinação e traduzidos, e assim, lidos como realidade. Enfim, haveria um real ‘concreto’, mas ele seria desprovido de ‘realidade’. Alias, o real ‘concreto’ sequer seria concreto.

Claro que Lacan e D. Juan não estão falando a mesma línguagem. Lacan fala de um real investido de idealização que então se torna realidade e assim podemos suportá-lo, mas este ‘real’ de Lacan já seria por si só um produto do nosso ponto de aglutinação que então receberia outra ‘camada de verniz’ da nossa psique (sem contrar inúmeras outras possíveis camadas) para que então possamos habitá-lo. Ou seja, a realidade passaria por várias filtragens até que tomássemos consciência dela.

Resumindo: partindo deste ponto de vista, realidade e alucinação difeririam apenas na quantidade de pessoas que as compartilham. Como a maioria vence, ficamos com as alucinações que possuem mais pontos em comum como realidade. Aquele cuja a alucinação é mais discordante se ferra. Outro ponto é, se sequer conseguimos suportar o ‘real’ Lacaniano, imagine o que aconteceria se entrassemos em contato com o ‘real’ Castanêdico/Juaniano...


(1) Declercq, F. (2003) The Real of the Body in Lacania Theory. Journal of Psycho-Social Studies (JPSS) Vol 2 (1) http://www.uwe.ac.uk/hlss/research/cpss/Journal_Psycho-Social_Studies/v2-1/DeclercqF.shtml

(2) Zizek, S. (1998) Love Thy Neighbour? No, Thanks! In Lana, C.9ed) The Psychoanalysis of Race. New York: Columbia University Press. Pp 154-175.

Obs: Sobre Castaneda, nao usei nenhum livro específico, mas a idéia que formei a partir da leitura da sua obra como um todo. Considero o livro O Fogo Interior bem didático, e o capitulo 7 é dedicado ao Ponto de Aglutinacao. Os livros dele podem ser facilmente baixados na internet.