Em Re-construção Constante

Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.







quinta-feira, julho 13, 2006

FORMAS E PARTES

Quando me olhava no espelho, comecei a pensar o quanto tendemos a nos identificar com o nosso rosto, o quanto achamos que ele é de fato a nossa face. Estava pensando isso porque pintei meus cabelos de uma cor errada, uma cor que deixou meu rosto muito diferente do que estava antes. Eu não estava me reconhecendo, não era mais eu. Então, percebi o absurdo desse pensamento.

Isso me remeteu para o Koan budista:

“Qual a sua verdadeira face, aquela que você tinha antes de nascer”.
E eu me perguntava qual seria a minha verdadeira face. Eu me perguntava se haveria uma face verdadeira.

A fixação na forma é uma das piores misérias a que o ser humano está condenado, principalmente a fêmea humana, cujo desejo é fomentado por um ideal de juventude e beleza ilusório.

Qualquer forma é transitória. Fixar algo significa matá-lo. Tentar eternizar algo que é passageiro é congelar um movimento, é enrijecer, e rigidez significa morte. A única coisa que podemos fazer para evitar isso é nos manter em movimento e ignorar o que nos dizem as fotos. O que são fotos? Não são fixações em momento que já passou? “Nossa, como eu estava magra!”, “Poxa, como eu fui envelhecer assim?”. Ninguém percebe que a cara da foto não é mais a sua cara, um segundo depois, não é mais a mesma, dois dias depois, já é outro rosto que te olha do espelho.


Todas aquelas atrizes que conseguiram sua fama graças à beleza acabam se tornando ridículas na velhice, cascas engessadas, vazias. Todo esse esforço vão de eternizar uma ilusão. Uma meta de vida realmente absurda.

Engraçado é que as pessoas mais joviais são justamente as que não se preocupam com isso.

Mas o pior é que ainda me pego me olhando no espelho.



Também pensava sobre o meu maior medo, que nunca foi morrer. Sempre temi ficar paralítica ou perder partes do corpo. Imagine! Perder partes de mim! Isso é outro absurdo. Como se perde partes daquilo que é indivisível? Mais uma vez, a fixação nas formas...

Mais uma vez o medo. Medo de mergulhar num inferno em vida, depender dos outros, não poder ir e vir à vontade. Mas já não estamos assim? Não percebemos, mas já estamos.

O medo do desconforto, o medo de ser despedaçado, fragmentado. Como se isso fosse definitivo, como se tudo não fosse passar. O conforto, o desconforto, a alegria, a tristeza, ilusões em que nos enfronhamos para não enxergar mais nada. Nos ocupamos dos pequenos assuntos, dos nascimentos, dos casamentos, das separações, como se isso nos desse sentido na vida.

Vejo meninas jovens sofrerem meses por um “pé na bunda”. Vejo que eu já fui uma dessas meninas, e do alto do tempo sorriu e tento não ser arrogante ao dizer: “Veja bem querida, rapazes vem, rapazes vão. Vá cuidar do que realmente fica”.

E elas deixam se enredar pela linguagem, como se a linguagem pudesse dizer a verdade sobre seus corpos: “Meu coração está partido”, “Estou aos pedaços”, “Estou em frangalhos”.

Essa é a morte em vida.

12 comentários:

Yazelovit disse...

É isso, Andréa-kaliandra. É simples, não? O reflexo começa a refletir sobre o próprio reflexo.

Yazelovit disse...

sobre os ciclos... um texto: http://www.terramistica.com.br/index.php?add=Artigos&file=article&sid=24&ch=6

tormenta_ritmica@hotmail.com disse...

Não, não é simples Yaze......

kaliandra disse...

Não percebem que LI é uma forma de exorcizar meu medo de perder partes do meu corpo?

Yazelovit disse...

claro que percebemos

kaliandra disse...

Ei, dei uma olhada no texto do link que você (Yazelovit) colocou aí. Isso me lembra um livro chamado Seu Sangue É Ouro, uma apologia à menstruação. Não, esse tipo de coisa já não me encanta mais.

Vou te dizer uma coisa, já pensei em ser Wicca, bruxa, essas coisas, mas não consigo respeitar ciclos e seguir rituais, já basta a rotina.

sou mulher agora, certamente na roda de sansara já fui homem, e isso não quer dizer mais muita coisa. Homem-mulher, dualidades, coisas do mundo dialético. Sexos servem para dividir a humanidade.

Minha busca é pela androginia pregada pelos alquimistas, mas é claro que ainda estou a léguas de distância, mas já abandounei as ilusões de ser uma sacerdotiza da lua ou algo do gênero.

; )

kaslu disse...

não, kali, na roda de samsara vc nunca foi nada!!!! Vc só tem essa vida - quando acordo sempre sou eu e sempre é hoje - but vc morrerá e acabousse - portanto, meu bem vc nunca foi homem.... e nunca foi mulher.... e tem mais - vc só será essa mulher: Kali!!!!

kaliandra disse...

sim, Kaslu, eu entendo o que você quer dizer. Mas de qualquer forma, a memória das outras personalidades estiverão aqui comigo, e eu pude acessá-las. De certa forma, sei como é sê-las, então é COMO se eu tivesse vivido, mesmo sabendo que não era Eu.

Mas, enfim, "deixe ir" e "nunca mais" são frases adoráveis.

kaliandra disse...

estiverão, foi mal, hehehe, inventei nova forma verbal.

kaslu disse...

pois é faz sentido: pois passado e futuro não existem mesmo: a expressão estiverão faz sentido...
é como se vc tivesse vivido but não viveu, nem viverá: talvez viveroa ou viveveria... mas definitivamente nunca vive uma experiência que não foi sua....
e não existem memórias de outras personalidades.... só existem átomos-trapos-retalhos agrupados de uma maneira completamente diversa - tão diversa - que nada são com relação ao passado muito menos com relação ao futuro: quando acordo sempre sou eu e sempre é hoje.... acha pouco, pois é o que vc terá, somente o que vc terá, até o dia de sua morte!!!!
bj

kaliandra disse...

Que assim seja, que assim se faça

Yazelovit disse...

é um saco, mas é verdade.
todas as vidas que vemos não são nossas.
isso não é figurativo.