Em Re-construção Constante

Não adianta parar, o caminho não termina porque você cansou. Ele termina quando você chega.







segunda-feira, dezembro 25, 2006

UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES




"(...)Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma
coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de
um estado de graça.Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia.
Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que
tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte.O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como
se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia.
Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradiava de
pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava
de leve porque na graça tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem
não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não
lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo
infantil: sem esforço, sabe-se.E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava. O corpo
se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque
estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de
existir materialmente.No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de
outra pessoa. Tudo, aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não
era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das
coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo o que existe – pessoa
ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor
de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.Nem
de longe Lóri podia imaginar o que devia ser o estado de graça dos
santos. Aquele estado ela jamais conhecera e nem sequer conseguia
adivinhá-lo. O que lhe acontecia era apenas o estado de graça de uma
pessoa comum que de súbito se torna real, porque é comum e humana
e reconhecível e tem olhos e ouvidos para ver e ouvir.As descobertas naquele estado eram indizíveis e incomunicáveis. Ela
se manteve sentada, quieta, silenciosa. Era como uma anunciação. Não
sendo porém precedida pelos anjos que, supunha ela, antecediam a graça
dos santos. Mas era como se o anjo da vida viesse anunciar-lhe o
mundo. Depois lentamente saiu daquela situação. Não como se tivesse
estado em transe – não houvera nenhum transe – saía-se devagar, com
um suspiro de quem teve o mundo como este o é. Também já era um
suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma
e a terra e o céu, queria-se mais e mais. Mas era inútil desejar: só
vinha espontaneamente.
Lóri não sabia explicar por que, mas achava que os animais entravam
com mais freqüência na graça de existir do que os humanos. Só que
aqueles não sabiam, e os humanos percebiam. Os humanos
tinham obstáculos que não dificultavam a vida dos animais, como
raciocínio, lógica, compreensão. Enquanto que os animais tinham
esplendidez daquilo que é direto e se dirige direto.O Deus sabia o que fazia: Lóri achava que estava certo o estado de graça
não nos ser dado freqüentemente. Se fosse, talvez
passássemos definitivamente para o “outro lado” da vida, que esse outro
lado também era real mas ninguém nos entenderia jamais: perderíamos
a linguagem em comum.Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque
ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se
era muito feliz. E habituar-se à felicidade, seria um perigo social.
Ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o eram, menos
sensíveis à dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar
os que precisavam – tudo por termos na graça a compreensão e o resumo
da vida.Não, nem que dependesse de Lóri, ela não quereria ter com muita freqüência
o estado de graça. Seria como cair num vício, iria atraí-la como um vício, ela
se tornaria contemplativa como os tomadores de ópio. E se aparecesse
mais a miúdo, Lóri tinha certeza de que abusaria: passaria a querer
viver permanentemente em graça. E isto representaria uma fuga
imperdoável ao destino humano, que era feito de luta e sofrimento
e perplexidade e alegrias.Também era bom que o estado de graça demorasse poucos momentos.
Se durasse mais, ela bem sabia, ela que conhecia suas ambições
quase infantis terminaria tentando entrar nos mistérios da Natureza. No que
ela tentasse, aliás, tinha a certeza de que a graça desapareceria. Pois
a graça era uma dádiva e, se nada exigia, se desvaneceria se passássemos
a exigir dela uma resposta. Era preciso não esquecer que o estado de
graça era apenas uma pequena abertura para o mundo que era uma espécie
de paraíso – mas não era uma entrada nele, nem dava o direito de se
comer dos frutos de seus pomares.Lóri saiu do estado de graça com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos
e, embora não tivesse sorrido, era como se o corpo todo acabasse de sair
de um sorriso suave. E saíra melhor criatura do que entrara.Havia experimentado alguma coisa que parecia redimir a condição
humana, embora ao mesmo tempo ficassem acentuados os estreitos
limites desta condição. E exatamente porque depois da graça a
condição humana se revelava na sua pobreza implorante, aprendia-se a
amar mais, a esperar mais. Passava-se a ter uma espécie de confiança
no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis.Havia dias que eram tão áridos e desérticos que ela daria anos de sua vida
em troca de uns minutos de graça."



(Lispector, C. "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres". Rio deJaneiro: Rocco, 1998. pg 131 - 134);

3 comentários:

Qalb disse...

Está além de tua possibilidade alegrar-se com o prazer desse ritmo? Está além de ti a possibilidade de te lançares e te perderes e te despedaçares no turbilhão dessa terrível alegria?

Todas as coisas se precipitam. Elas não param, não olham para trás, e ninguém as consegue conter. Elas se precipitam.

Ao compasso dessa música incansável e rápida, as estações chegam e vão-se embora. E as cores, melodias e perfumes se derramam em cascatas sem fim nessa alegria abundante que a cada momento se espalha, se entrega, e morre.

Valentina disse...

Eu morreria por vc Qalb!!!!

Erguendo e destruindo mundos que te fazem sorrir
Erguendo e destruindo mundos que te fazem sofrer
Pago o preço!!!
Sem titubear...

s!nך disse...

vivi isso.